série de auto-retratos feitos durante o outono e inverno de 2020 no período de isolamento social, em São Paulo

Desde pequeno precisei criar meus lugares seguro no mundo, lembro que durante muitos anos minha casa era meu armário, lá eu expunha minha intimidade, minha personalidade, quem eu era, só para mim mesmo. Abrir o armário de outra pessoa era considerada uma invasão de privacidade. Quando saí da casa dos meus pais pela primeira vez foi uma revolução, a nova casa aos poucos foi virando templo, o lugar para onde a gente se resguarda e guarda os objetos, que vão se tornando cada vez mais sobre afeto e memória. Não sei se todo mundo é assim, ou se é minha lua em câncer, mas a casa é uma extensão de mim e também da minha memória, porque os objetos espelhados pela casa me ajudam a lembrar quem eu sou, do que sou feito, de quais pessoas e deusas. Essa semana deixei meu vulto na película do filme e gravei minha presença entre aqueles quadros e livros que irão durar mais do que eu. 

Esses dias fiquei pensando que a nossa percepção do tempo é desconectada com o tempo da natureza e de outros seres, e como temos dificuldade de se conectar com o tempo das plantas, de animais e astros. Ficando em casa comecei a ver a movimentação de plantas e pequenos bichos diariamente, reparei como sentem a mudança da estação, observei o crescimento de uma folhinha na jardineira e depois de uns dois dias fui ver como ela já estava enorme. No outono, conheci a borboleta que pousou na varanda e ficou voando voando durante uns três dias até pousar para esperar e morrer. Reparei nos pássaros que se hospedavam nas árvores da rua, e que não estão mais lá, talvez tenham migrado para outra árvore ou estejam esperando o inverno passar para voltar a voar. Tenho acompanhado de forma mais atenta o movimento cíclico da lua e os impactos que isso tem na nossa vida. O tempo de rotação que a lua dá em torno de si mesma é exatamente o mesmo tempo que ela leva para dar a volta em torno da terra! Esse último movimentos se chama revolução! Cada ciclo da lua é uma revolução, são 12 revoluções por ano. A forca magnética entre a terra e a lua é forte, tenho percebido como as plantas na varanda, os pássaros da rua, e os insetos de casa sentem essa força e os ciclos da lua. O tempo às vezes vira na lua cheia, não seria possível que ela não influenciasse em nós. 

Mas como a gente vai se esquecendo disso né? Fomos nos distanciando cada vez mais dessas coisas reais. Penso essa melancolia generalizada da nossa época como consequência desse nosso distanciamento da natureza. Precisamos nos animalizar urgentemente, derrubar os padrões humanos, naturalizar e celebrar a diversidade de seres e corpas presentes nesse planeta. Aprendamos a viver no tempo das plantas, no tempo das pedras. Tempo é rei, é orishá Irokô. No momento que finalizo esse texto, as nuvens abrem espaço no céu e a lua está bem crescente no alto do céu, em cima de nossas cabeças.

Desejar a derrubada do sistema materialista capitalista e habitar o planeta como espécie. Aprender a ser insetos e habitar a metamorfose. Metamorfose não é só o momento de virar borboleta, é o tempo do casulo também. É no casulo que a transmutação acontece. O que a gente constrói no casulo para voar na fase borboleta? Existe o dia porque existe a noite, a vida só é, porque existe a morte, e tudo isso está em constante movimento na natureza e em nós. Meu corpo é bicha capaz de se transformar em erva.

Nesse tempo de adoecimento geral dos corpos, as pessoas transvestigeneres nos apontam um caminho para conexão com a natureza e reencantamento dos nossos corpos. Encontrar a cura na transmutação, viver no estado de metamorfose, e habitar o lugar da transformação. Aprendi com Castiel Vitorino Brasileiro que a cura é perecível (como nós), ela nunca é definitiva, não existe um estágio estático da cura enquanto se está viva. O processo de cura é o próprio processo da vida, da existência, a cura de hoje não garante a de amanhã, cura é transição, é liberdade de movimentar-se, é atualização, até porque a doença também se atualiza. Hoje transformei a casa num espaço de cura.

Esse mês entendi que a vida é feita de várias mortes. Falo de mortes internas que vamos vivendo ao longo da vida, e tem as pequenas mortes do corpo também, que vai sofrendo os danos de viver. Para transformar acabamos morrendo todo dia um pouco, mas depois se inicia a transmutação e o renascimento. Tive minha primeira morte em vida na infância, quando outros seres da nossa espécie começam a nos nomear e classificar. Savasana, na yoga, é a posição do cadáver. Ela propõe também um reencontro da mente com o corpo. Na posição do cadáver habitamos a imobilidade, é como se nossa mente morresse e não pudesse nada sobre o nosso corpo durante esse tempo. Sinto como um botão de desligar e religar o corpo.



Li uma vez sobre o Egito antigo, que o Sol era o maior dos deuses e que eles celebravam diariamente o surgimento dele no horizonte, durante cada noite existia sempre um mistério e uma expectativa se ele surgiria novamente no horizonte depois de desaparecer por algumas horas. Acho tão bonita essa relação com o Sol, cultivar sua presença hoje sem a certeza de que ele estará no céu amanhã. Faz uns anos que adquiri o costume de dormir com a janela aberta, deixo a persiana inteira aberta para a claridade dos primeiros raios de sol me acordarem naturalmente. 

No mesmo dia, duas amigas me contaram sonhos de outras pessoas. A primeira sonhou que estava na casa dela e encontrou uma porta que parecia que ela nunca tinha aberto e quando abriu viu um mar imenso dentro dela. A outra sonhou que outra amiga estava recebendo uma recompensa que sempre esperou da vida, de repente ela está radiante de felicidade e conforme ela solta o cabelo, ele se transforma em água e inunda a cidade. Os sonhos, assim como as imagens, podem abrir portas para a imaginação. Esses dias sonhei que as ruas eram florestas, não tinha mais carros nem asfalto, além das ruínas de grande parte dos prédios que restaram, o resto era tudo mata e bichos.

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